Texto legal q encontrei no blog da
Cá Ciarallo — promete uma coisa?
— o que?
— não, diz que promete primeiro.
— não posso prometer algo que eu não sei o que é.
— verdade.
— ...
— ah, sim! Promete que não vamos nos apaixonar?
— como assim?
— que não vamos nos apaixonar, ué.
— um pelo outro?
— é.
— mas...
— mas o que?
— nada.
— não, agora fala, por favor.
— sei lá. Acho meio estranho prometer isso.
— por quê?
— por que a gente não controla essas coisas, você já deveria saber disso.
— controla se quisermos.
— claro que não! Muito pelo contrário! Quanto mais se força a fazer algo, mais se quer.
— discordo. Acho possível conseguir não se apaixonar.
— claro que é possível, mas depende da situação, né?
— e você acha que a nossa situação não é válida pra isso?
— ah, não sei. Eu gosto de estar com você.
— eu também gosto, você sabe disso... Ah não! Pode parar. Não vamos começar com isso!
— isso o que?
— isso de ‘eu gosto de estar com você’. É o primeiro passo pra nos apaixonarmos.
— quem disse?
— eu disse! Depois disso vem o ‘estou com saudades’, e então o ‘queria você aqui’, e aí pronto! Quando menos esperamos estamos bobinhos, com aquele sorriso frouxo no rosto e aquele brilho no olhar. E isso não tá certo. Nós não queremos isso.
— não?
— não!
— por que não?
— por que não é certo.
— como não é certo?
— não sendo.
— explica, por favor.
— não quero.
— pára com isso. Deixa de ser assim e explica.
— ah... Não é certo se apaixonar. No final é tudo a mesma coisa. Começa sendo algo inocente, que lhe faz bem. Aí vai crescendo e tomando conta de tudo. Os seus pensamentos não são mais seus, as suas ações não são mais baseadas só na sua vontade, tudo é feito a dois, se tem um, o outro está incluído. E aí, depois de se acostumar com essa nova vida, essa nova, digamos, personalidade, tudo acaba. E aí sobra o que? Os pensamentos que não são seus, mas que não vão embora. A falta de costume de fazer as coisas por si só, de não pensar sempre em dupla. A mágoa. O choro. E a vontade de não ter se apaixonado, por que aí não sofreria.
— eu acho que você tem a visão distorcida do que é estar apaixonado.
— ou então eu já sei o que é e não quero passar por isso de novo.
— mas uma experiência nunca é igual à outra.
— quando a questão é os apaixonados, é sempre assim, vai dizer que não?
— eu acho que não. Depende do casal. Acho que estar apaixonado é como cartão de crédito, pessoal e intransferível. Cada pessoa se apaixona de um jeito. Você tem a ideia de que se apaixonar é assim e pronto, que será sempre assim. Mas eu posso me apaixonar por você e lhe mostrar que não é como você descreveu. Que pode sim ser diferente, você não precisa perder sua individualidade só por que está apaixonado.
— eu sei que não. Mas todo mundo acaba perdendo, é natural.
— não, não é.
— é sim. É apaixonar-se e bum! Duas pessoas viram uma.
— não necessariamente! Por que você nunca me escuta?
— por que eu sei que é assim! Já passei por isso e não quero de novo.
— você tem essa mania de achar que tudo vai ser sempre igual.
— e você tem a mania de achar que pode mudar tudo sempre.
— eu não quero mudar nada, só quero te mostrar que é possível se apaixonar e não perder sua identidade.
— eu duvido, e não quero descobrir.
— pra que ser tão cabeça dura?
— não sou cabeça dura, só gosto da minha vida como ela tá. Você sempre soube que eu não gosto de mudanças.
— mas mudanças são boas.
— ou não.
— o problema é que você tem traumas com mudanças e com paixões.
— claro que tenho, quem não tem?
— é, mas só você quer se isolar numa bolha e fingir que o mundo não gira mais.
— eu não tô me isolando, eu só tô te pedindo pra não nos apaixonarmos!
— mas você sabe que é inevitável, ainda mais com a gente!
— por quê? Só por que somos amigos? Um motivo a mais pra não nos apaixonarmos.
— você não vai perder minha amizade, sabe disso.
— sei, mas não há garantia se nos apaixonarmos.
— e então ficamos nisso? Nesse chove e não molha?
— não, ficamos sendo quem sempre fomos.
— e isso já não é suficiente pra nos apaixonarmos? Eu acho que nós já estamos apaixonados faz tempo. Falo por mim e por você.
— pára com essa história.
— é sério. Pensa comigo, somos amigos, conversamos sobre tudo, a qualquer momento, não conseguimos ficar sem nos vermos por um longo período, e, do mês passado pra cá, a única coisa que mudou é que agora a gente se beija.
— ...
— concorda?
— não, não concordo. E não quero mais brincar disso também. Sabia que era errado. Por isso que não fico com amigos, só dá errado.
— eu não acho que a gente esteja dando errado, você acha?
— até enquanto não estivermos apaixonados, não.
— você vai insistir nessa história, né?
— claro que vou, quem é a teimosia da dupla?
— você.
— então!
— tá bom, vamos conversar sobre isso depois?
— não enquanto você não prometer.
— não vou prometer isso agora. Vamos pensar, conversar e outra hora a gente discute.
— tá, mas eu não vou esquecer.
— eu sei que não, quem esquece sou eu.
— ótimo.
— ótimo.
— ...
— eu gosto muito de você, sabia?
— eu também gosto, você sabe. Mas não vamos recomeçar, por favor.